A transformação legislativa no âmbito do Direito Penal brasileiro é uma constante que exige do operador do direito não apenas atualização, mas uma leitura sóbria da jurisprudência dos Tribunais Superiores. Uma das mudanças mais ruidosas trazidas pelo Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019) diz respeito à natureza da ação penal no crime de estelionato. Embora a alteração legislativa tenha gerado esperança de uma ampla retroatividade benéfica, a consolidação jurisprudencial impôs freios significativos que todo advogado criminalista precisa conhecer para não vender ilusões aos seus clientes.
A Mudança de Paradigma no Estelionato
O crime de estelionato (art. 171 do Código Penal) historicamente foi tratado sob a égide da ação penal pública incondicionada. O Estado, ao tomar conhecimento do fato, agia de ofício, independente da vontade da vítima. Com a Lei 13.964/2019, o legislador inseriu o § 5º, alterando a regra do jogo: o estelionato passou a ser de ação penal pública condicionada à representação.
Isso significa que, em regra, a persecução penal depende agora do “sinal verde” da vítima. No entanto, é crucial lembrar que essa regra não é absoluta. A ação permanece pública incondicionada quando a vítima for:
- A Administração Pública, direta ou indireta;
- Criança ou adolescente;
- Pessoa com deficiência mental;
- Maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz.
A intenção legislativa foi clara: retirar do Estado o peso de tutelar crimes patrimoniais sem violência onde o próprio ofendido não demonstra interesse na punição. O problema, contudo, surgiu na transição: como aplicar essa norma aos milhares de processos que já estavam em andamento?
O Conflito: Dogmática Penal vs. “Pragmatismo” Jurisprudencial
Para compreender o cenário atual, é preciso distinguir a teoria da prática dos tribunais.
A Teoria (Normas Híbridas):
A exigência de representação é uma norma de caráter misto (processual e material). É processual porque regula o início da ação (condição de procedibilidade), e é material porque sua ausência acarreta a extinção da punibilidade (decadência). Pela dogmática clássica e pelo art. 5º, XL, da Constituição Federal, normas materiais benéficas devem retroagir para alcançar todos os fatos não transitados em julgado.
A Realidade (A Barreira do STF):
Apesar da dogmática apontar para a retroatividade ampla, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar o Habeas Corpus 187.341/SP, firmou um entendimento restritivo para evitar um “colapso” de impunidade. O Tribunal decidiu que a retroatividade da exigência de representação não alcança os processos onde a denúncia já havia sido oferecida antes da vigência da Lei 13.964/2019.
Portanto, criou-se um marco temporal rígido:
- Inquéritos e casos sem denúncia até 23/01/2020: A lei retroage. A vítima deve ser intimada para representar. Se não o fizer, ocorre a extinção da punibilidade.
- Processos com denúncia oferecida antes da Lei: A lei NÃO retroage. O ato de oferecimento da denúncia foi considerado um ato jurídico perfeito sob a regra antiga (*tempus regit actum*), e a representação da vítima é considerada desnecessária ou presumida.
Essa distinção é vital. O advogado que pleiteia a decadência em um processo que já estava em fase de instrução ou sentença quando a lei mudou terá seu pedido negado com base na atual jurisprudência do STF e do STJ (que alinhou seu entendimento nos Embargos de Divergência no REsp 1.612.162).
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A Decadência e a Contagem do Prazo
Nos casos onde a retroatividade é permitida (ou seja, fase de inquérito ou denúncia não oferecida até a vigência da lei), a aplicação da decadência torna-se uma tese defensiva poderosa.
O prazo decadencial é de 6 meses. Mas a partir de quando?
Para fatos anteriores à lei, o prazo não corre da data do crime (o que seria impossível), mas sim da data da intimação da vítima para manifestar seu interesse.
Atenção à estratégia: Se o seu cliente responde a um inquérito antigo (pré-2020) que ainda não virou processo, verifique se a vítima foi intimada após a mudança da lei. Se foi intimada e quedou-se inerte por 6 meses, a punibilidade deve ser extinta. Se o Estado falhou em intimar a vítima por anos, há espaço para arguir o trancamento por excesso de prazo ou falta de condição de procedibilidade superveniente.
Pontos de Atenção para a Advocacia Criminal
Diante desse cenário, a atuação do advogado deve ser cirúrgica:
1. Verifique a Data da Denúncia: Antes de prometer a extinção do processo ao cliente, olhe a data de oferecimento da denúncia. Se for anterior a 23/01/2020, a tese da falta de representação tem chances mínimas de êxito nos tribunais superiores, salvo eventual *overruling* (mudança de entendimento) futuro.
2. Cuidado com a “Administração Pública”: A exceção que mantém a ação pública incondicionada quando a vítima é a Administração Pública tem sido interpretada de forma extensiva. O STJ tem precedentes indicando que crimes contra empresas públicas (como a Caixa Econômica Federal) e sociedades de economia mista permanecem incondicionados, afastando a necessidade de representação.
3. A Inércia da Vítima: Nos casos novos (pós-2020) ou inquéritos antigos reabertos para intimação, o silêncio da vítima é ouro para a defesa. A representação deve ser inequívoca. O mero registro de B.O. nem sempre supre essa formalidade, especialmente se a vítima, posteriormente intimada, não ratifica o desejo de processar.
O domínio sobre as teses de estelionato, incluindo as fraudes eletrônicas e suas competências, é essencial. Para uma visão prática e atualizada, conheça nosso curso específico sobre Estelionato.
Conclusão
A aplicação da Lei Anticrime ao delito de estelionato é um exemplo clássico de como a política criminal pode atropelar a dogmática jurídica. Embora a teoria das normas híbridas sugerisse uma retroatividade ampla, o Judiciário optou por uma solução de segurança jurídica que preservou as ações penais já iniciadas.
Para o advogado, o cenário exige menos idealismo e mais tecnicismo: é preciso saber diferenciar os casos onde a tese da decadência é viável (inquéritos e denúncias pós-lei) daqueles onde ela encontra barreira na jurisprudência consolidada (denúncias pré-lei). A advocacia de alto nível se faz conhecendo não apenas a lei, mas como os tribunais decidem aplicá-la.
Perguntas e Respostas Rápidas
1. Tenho um processo de estelionato de 2018, já com denúncia recebida. Posso pedir a extinção por falta de representação?
Pelo entendimento atual do STF (HC 187.341), não. A Corte entende que a retroatividade da lei não atinge processos onde a denúncia já havia sido oferecida antes da vigência da Lei Anticrime.
2. A vítima precisa contratar advogado para representar?
Não. A representação é um ato informal, bastando a manifestação inequívoca de vontade de ver o autor processado perante a autoridade policial ou Ministério Público.
3. E se a vítima for uma empresa pública, como os Correios?
Neste caso, aplica-se a exceção do § 5º, inciso I. A ação penal continua sendo pública incondicionada, não necessitando de representação e não havendo risco de decadência por esse motivo.
4. O prazo de 6 meses conta da data do fato nos casos novos?
Não. Conforme o art. 38 do CPP, o prazo conta do dia em que a vítima vem a saber quem é o autor do crime, e não necessariamente da data do fato (embora muitas vezes coincidam).
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Acesse a lei relacionada em Lei nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019
Este artigo teve a curadoria da equipe da Legale Educacional e foi escrito utilizando inteligência artificial a partir do seu conteúdo original disponível em https://www.conjur.com.br/2025-nov-27/decadencia-de-estelionato-vale-para-casos-anteriores-a-lei-anticrime/.