Em resumo

Municípios podem implementar cotas em contratações diretas observando normas federais e princípios constitucionais. Lei 14.133/2021 e Decreto 9.508/2018 estabelecem

Municípios podem implementar cotas em contratações diretas mesmo sem legislação municipal específica, desde que observem as normas federais vigentes e os princípios constitucionais da isonomia e da legalidade. A ausência de lei local não impede a aplicação de regras gerais, mas exige fundamentação técnica robusta e observância aos limites da competência legislativa.

O que a legislação federal prevê sobre cotas em contratações públicas municipais?

A Lei nº 8.666/1993, em seu art. 24, inc. XX, já previa a dispensa de licitação para contratação de associações ou cooperativas de pessoas com deficiência. Com a entrada em vigor da Lei nº 14.133/2021, o art. 75, inc. III, ampliou essa possibilidade ao autorizar a contratação direta para fornecimento de bens ou serviços produzidos ou prestados por organizações da sociedade civil que atendam a requisitos específicos.

O Decreto Federal nº 9.508/2018 estabeleceu reserva de cota de até 25% do objeto para microempresas e empresas de pequeno porte nas licitações, aplicável também aos municípios. Esse percentual tornou-se referência para políticas de preferência em contratações públicas, embora não trate especificamente de cotas sociais ou raciais.

A Constituição Federal, no art. 37, inc. VIII, determina que a lei reservará percentual de cargos e empregos públicos para pessoas com deficiência. Essa previsão vincula todos os entes federativos, mas sua aplicação direta a contratações de serviços terceirizados ou fornecimento depende de regulamentação específica.

O Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010) estabelece diretrizes para ações afirmativas, mas não impõe percentuais obrigatórios para contratações administrativas. A ausência de norma municipal expressa cria zona de insegurança jurídica quando gestores tentam implementar cotas sem amparo legislativo local.

Como os tribunais superiores têm se posicionado sobre cotas em contratações sem lei municipal?

O Supremo Tribunal Federal reconhece a constitucionalidade das ações afirmativas em diversos julgados, desde que observem critérios de razoabilidade e proporcionalidade. A ADPF 186 consolidou o entendimento de que políticas de cotas não violam o princípio da isonomia quando destinadas a corrigir desigualdades históricas.

O Tribunal de Contas da União tem posição mais restritiva quanto à implementação de cotas por atos infralegais. Em diversos acórdãos, determinou que preferências ou reservas de vagas em licitações devem estar previstas em lei em sentido estrito, não podendo ser criadas por decreto ou instrução normativa.

Tribunais de Contas Estaduais apresentam divergências significativas. Alguns validam cotas estabelecidas por decretos municipais quando fundamentadas em legislação federal ou estadual aplicável. Outros consideram irregular qualquer reserva de vagas sem lei municipal expressa, aplicando multas aos gestores responsáveis.

O Superior Tribunal de Justiça tem casos esparsos sobre o tema, geralmente reconhecendo a legalidade de ações afirmativas quando há base legal suficiente. A ausência de lei específica não invalida automaticamente a política pública, mas transfere ao gestor o ônus de demonstrar fundamentação jurídica consistente.

A jurisprudência aponta para consenso em um ponto: cotas implementadas apenas por portarias ou resoluções, sem qualquer amparo legal superior, são consideradas ilegais. A discricionariedade administrativa não alcança a criação de obrigações ou restrições sem fundamento normativo adequado.

Como essa insegurança jurídica impacta a atuação do advogado que atende municípios ou fornecedores?

Advogados que assessoram prefeituras precisam orientar gestores sobre os riscos de implementar cotas sem legislação municipal. A responsabilização pessoal por atos de improbidade administrativa e por irregularidades perante tribunais de contas tornou-se mais rigorosa, exigindo parecer técnico detalhado antes de qualquer iniciativa.

A estratégia defensiva passa por identificar fundamentos normativos federais ou estaduais aplicáveis ao caso concreto. É preciso demonstrar que a política de cotas não foi criada arbitrariamente, mas decorre de aplicação de norma superior ao município. A fundamentação deve constar expressamente do processo administrativo.

Para advogados que representam empresas participantes de licitações, surge oportunidade de questionar editais que estabeleçam cotas sem base legal. A impugnação administrativa do edital, dentro do prazo legal, pode afastar exigências inconstitucionais ou ilegais que limitem a competitividade.

A representação junto ao Ministério Público ou ao Tribunal de Contas também se torna ferramenta relevante quando há suspeita de favorecimento ou direcionamento disfarçado de reserva de cotas. É fundamental distinguir políticas públicas legítimas de tentativas de burlar a competição isonômica.

Na consultoria preventiva, recomenda-se que municípios interessados em implementar cotas elaborem projeto de lei a ser submetido à Câmara Municipal. Essa tramitação legislativa garante legitimidade democrática, debate público e segurança jurídica para gestores e contratados.

Perguntas frequentes

Município pode aplicar cotas raciais em licitações sem lei municipal específica?

Não é recomendável. Embora haja fundamentos constitucionais e legais federais para ações afirmativas, a ausência de lei municipal expressa expõe o gestor a questionamentos nos tribunais de contas e ao risco de responsabilização. A melhor prática é submeter projeto de lei à Câmara Municipal antes de implementar qualquer política de cotas em contratações.

Decreto municipal pode estabelecer reserva de vagas para pessoas com deficiência em contratos terceirizados?

Há divergência. Alguns tribunais de contas aceitam decretos fundamentados na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e na Lei Brasileira de Inclusão. Outros exigem lei municipal em sentido estrito. A posição mais segura juridicamente é buscar autorização legislativa, embora existam argumentos defensáveis para uso de decreto quando há norma federal aplicável.

Edital que exige cotas sem base legal pode ser impugnado com sucesso?

Sim. A impugnação administrativa deve ser apresentada em até 3 dias úteis antes da abertura dos envelopes ou da sessão eletrônica, conforme art. 164 da Lei nº 14.133/2021. Deve-se demonstrar a ausência de fundamento legal para a exigência e eventual violação aos princípios da legalidade e isonomia. Se não houver resposta satisfatória, cabe mandado de segurança.

Qual o risco para o gestor que implementa cotas apenas por portaria?

O gestor pode responder por improbidade administrativa, conforme Lei nº 8.429/1992, especialmente se houver dano ao erário ou favorecimento indevido. Além disso, está sujeito a multa e outras sanções do tribunal de contas competente. A ausência de fundamentação legal adequada caracteriza ilegalidade passível de responsabilização pessoal, inclusive com bloqueio de bens.

Como fundamentar juridicamente política de cotas municipal sem lei local?

É necessário demonstrar aplicação direta de norma constitucional ou legal federal, como a Lei Brasileira de Inclusão ou tratados internacionais ratificados pelo Brasil. O parecer jurídico deve indicar especificamente qual dispositivo autoriza a medida, comprovar proporcionalidade e razoabilidade da cota estabelecida, e juntar estudos técnicos que demonstrem a necessidade da política pública naquele contexto local.

Quer dominar Direito Administrativo na prática?

A Pós-graduação em Licitações e Contratos Administrativos é EAD, tem certificado reconhecido pelo MEC, acesso imediato e garantia de 7 dias — em 10x de R$ 73,99.

Conhecer a pós-graduação

Ver todos os cursos de Direito Administrativo

Fontes

  • Pauta sugerida pela cobertura de: ConJur

Este artigo teve curadoria da equipe da Legale Educacional e foi produzido com apoio de inteligência artificial. As citações de lei e de artigos de código foram conferidas no texto oficial publicado pelo Planalto.

Continue lendo sobre o tema

Governança e integridade no setor público: exigências legais

Lei nº 14.133/2021 e Decreto nº 11.529/2023 obrigam órgãos públicos a implementar programas de compliance, canais de denúncia e gestão de riscos, com interpretações

Ler artigo

Terceirização vedada em contratos de gestão com organizações

Contratos de gestão com OSCs que permitem contratação de pessoal permanente para atividades típicas do Estado violam Lei 13.019/2014, configurando burla ao regime de

Ler artigo

Sistema de Registro de Preços obrigatório nas cinco hipóteses

O artigo 82 da Lei 14.133/2021 estabelece cinco situações em que a Administração Pública deve adotar o Sistema de Registro de Preços, incluindo contratações frequentes e

Ler artigo

Padronização em compras públicas expressas conforme Lei

Padronização nas compras expressas exige especificações técnicas claras e fundamentadas. Lei 14.133/2021 estabelece requisitos rigorosos para evitar direcionamentos que

Ler artigo