O Regime Centralizado de Execuções como Mecanismo de Efetividade no Processo do Trabalho
A fase de execução constitui, historicamente, o maior gargalo do judiciário trabalhista brasileiro. Ocorre frequentemente o fenômeno jurídico onde o direito material é reconhecido em sentença, mas a satisfação do crédito alimentar encontra barreiras intransponíveis na insolvência ou na desorganização patrimonial do devedor. Diante desse cenário de ineficiência, a doutrina e a jurisprudência, impulsionadas por recentes alterações legislativas, têm se voltado para soluções que buscam equilibrar a satisfação dos credores com a preservação da atividade econômica.
O Regime Centralizado de Execuções (RCE) surge como uma ferramenta processual de alta relevância nesse contexto. Trata-se de um procedimento que permite a reunião de diversas execuções contra um mesmo devedor em um único juízo, organizando o pagamento dos passivos trabalhistas de forma escalonada e previsível. Diferente da execução individual, que muitas vezes resulta em uma “corrida” predatória sobre os ativos da empresa, o regime centralizado propõe uma lógica concursal mitigada, sem necessariamente levar a empresa à falência ou recuperação judicial.
Para o advogado que atua na seara trabalhista, compreender as nuances desse regime não é apenas uma questão teórica, mas uma necessidade prática urgente. O domínio sobre como requerer, processar ou impugnar um Plano Especial de Pagamento Trabalhista (PEPT) ou um RCE pode definir o sucesso na recuperação de créditos vultosos ou na salvação de uma empresa em crise.
A Crise de Efetividade na Execução Trabalhista e a Evolução Legislativa
A execução trabalhista tradicional rege-se pelo impulso oficial e pela busca de bens penhoráveis conforme a ordem preferencial do Código de Processo Civil, aplicada subsidiariamente ao Processo do Trabalho. No entanto, a prática forense demonstra que a penhora online e outras medidas constritivas isoladas, quando aplicadas a empresas com múltiplos débitos, geram um colapso financeiro que inviabiliza a continuidade do negócio. O fechamento da empresa, por sua vez, cessa a geração de riqueza e extingue a possibilidade de pagamento dos demais credores.
Foi nesse cenário que a Consolidação dos Provimentos da Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho (CGJT) começou a desenhar a possibilidade da reunião de execuções. A ideia central é evitar que um único credor absorva toda a liquidez da empresa, deixando centenas de outros trabalhadores sem receber. A evolução desse entendimento culminou na positivação mais clara de regimes centralizados, especialmente com o advento da Lei nº 14.193/2021, conhecida como a Lei da Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Embora a Lei da SAF tenha sido criada com foco nas agremiações desportivas, a hermenêutica jurídica tem permitido a aplicação analógica de seus institutos, ou ao menos a inspiração procedimental, para outras entidades empresariais em crise, através do Procedimento de Reunião de Execuções (PRE). Aprofundar-se nessas novas modalidades executórias é essencial. O curso de Pós-Graduação em Nova Execução Trabalhista da Legale Educacional aborda detalhadamente essas inovações, preparando o profissional para os desafios contemporâneos da fase expropriatória.
Natureza Jurídica e Funcionamento do Regime Centralizado
O Regime Centralizado de Execuções opera sob a premissa da concentração de atos processuais. Ao invés de o devedor responder a centenas de ordens de bloqueio em varas distintas, todas as execuções são atraídas para um Juízo Centralizador. Este juízo passa a ter a competência exclusiva para gerir o passivo e determinar os pagamentos, seguindo uma ordem de preferência estabelecida, muitas vezes priorizando créditos de idosos, portadores de doenças graves e créditos de natureza estritamente salarial até determinados limites.
Para que o regime seja deferido, a empresa deve apresentar um plano de pagamento factível. Geralmente, compromete-se uma porcentagem fixa da receita mensal da organização para o pagamento da dívida consolidada. Esse percentual varia, mas costuma orbitar entre 20% a 60% das receitas correntes, garantindo que o fluxo de caixa remanescente seja suficiente para a operação corrente da empresa, incluindo o pagamento dos salários atuais e tributos.
A natureza jurídica deste instituto aproxima-se de uma recuperação judicial simplificada, porém restrita ao âmbito trabalhista e gerida pela própria Justiça do Trabalho. Não há a necessidade da complexidade de uma assembleia geral de credores nos moldes da Lei 11.101/2005, embora o contraditório e a transparência sejam fundamentais. O juiz gestor da centralização atua com amplos poderes para fiscalizar o cumprimento do acordo e, em caso de descumprimento, pode determinar a convolação do regime em execução forçada tradicional ou até mesmo a falência.
O Plano Especial de Pagamento Trabalhista (PEPT)
Dentro da sistemática da Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho, destaca-se o Plano Especial de Pagamento Trabalhista (PEPT). Este mecanismo é regulamentado para garantir a efetividade da prestação jurisdicional em face de grandes devedores. O deferimento do PEPT exige requisitos rigorosos. A empresa deve demonstrar a inviabilidade de quitar as execuções de forma imediata sem comprometer sua existência, apresentar balanços contábeis auditados e listar todos os processos em curso.
A concessão do PEPT suspende os atos constritivos nas ações individuais. Isso significa que as penhoras online, os bloqueios de faturamento e os leilões designados em processos esparsos são sustados. Em contrapartida, o devedor deve depositar mensalmente o valor acordado em uma conta judicial vinculada ao plano. A falta de depósito pontual acarreta a exclusão do regime e o vencimento antecipado das dívidas, retornando-se ao *status quo ante* de execuções individuais agressivas.
Vantagens e Desafios para Credores e Devedores
A análise crítica do Regime Centralizado de Execuções revela um sistema de “ganha-ganha” condicionado à boa-fé e à capacidade econômica real do devedor. Para a empresa, a principal vantagem é o “fôlego” financeiro. Ao substituir bloqueios surpresa e penhoras indiscriminadas por uma parcela mensal previsível, a gestão empresarial consegue planejar seu fluxo de caixa, manter contratos com fornecedores e preservar os postos de trabalho existentes.
Para o credor trabalhista, a vantagem reside na maior probabilidade de recebimento. Em um cenário de insolvência desordenada, os primeiros a executar levam tudo, enquanto a maioria fica com certidões de crédito incobráveis. No regime centralizado, cria-se uma fila organizada de pagamento. Embora o tempo de recebimento possa ser alongado, a certeza do pagamento aumenta significativamente, amparada pela fiscalização judicial constante sobre o faturamento da empresa.
Entretanto, existem riscos. O principal desafio é a morosidade. O parcelamento pode se estender por anos (no caso da SAF, por exemplo, o prazo pode chegar a 10 anos). Além disso, há o risco de o plano ser utilizado como manobra protelatória por empresas que não possuem viabilidade econômica real, apenas adiando a falência inevitável e corroendo ainda mais o patrimônio que poderia garantir parte das dívidas. O advogado do reclamante deve estar atento a esses sinais para requerer a desconsideração do plano ou medidas mais drásticas quando necessário.
O Papel do Juízo Centralizador
A figura do Juízo Centralizador é vital para o sucesso do instituto. Normalmente, essa função é exercida por um juiz auxiliar de execução ou pelo juiz gestor de centralização nos Tribunais Regionais. A competência desse magistrado abrange não apenas a arrecadação de valores, mas também a decisão sobre incidentes processuais, habilitação de novos créditos e a análise de prioridades legais.
A jurisprudência tem consolidado o entendimento de que as decisões do Juízo Centralizador prevalecem sobre as determinações dos juízos de origem das execuções individuais. Isso gera segurança jurídica, evitando conflitos de competência que poderiam paralisar o repasse de valores. O advogado deve direcionar suas petições de habilitação e urgência diretamente a este juízo, sob pena de ineficácia de seus requerimentos nas varas de origem.
Estratégias Advocatícias no Regime Centralizado
A atuação do advogado muda drasticamente quando a executada entra em um regime centralizado. Para a defesa da empresa, a estratégia envolve a elaboração de um plano robusto, com suporte contábil e financeiro, capaz de convencer o tribunal da viabilidade do negócio. É necessário demonstrar que a manutenção da atividade econômica é mais benéfica socialmente do que a liquidação forçada dos ativos. O conhecimento interdisciplinar torna-se um diferencial competitivo.
Para o advogado do reclamante, a postura deve ser de fiscalização ativa. É crucial monitorar se a empresa está cumprindo os depósitos mensais e se a ordem da fila de pagamentos está sendo respeitada. Deve-se verificar se o crédito do cliente foi corretamente habilitado com todas as atualizações e juros devidos. Em casos de fraude ou ocultação de patrimônio, o advogado deve provocar o Juízo Centralizador para a instauração de incidentes de desconsideração da personalidade jurídica, buscando bens dos sócios, caso o plano empresarial se mostre insuficiente ou fraudulento.
A complexidade dessas operações exige uma base teórica sólida em Direito Processual do Trabalho e conhecimentos específicos sobre as normativas de execução coletiva. Para os profissionais que desejam se destacar nessa área, recomendamos fortemente o aprofundamento acadêmico. O curso de Pós-Graduação em Direito do Trabalho e Processual do Trabalho oferece a base necessária para compreender o sistema como um todo, enquanto cursos mais específicos focam na instrumentalidade da execução.
Conclusão
O Regime Centralizado de Execuções representa uma mudança de paradigma na Justiça do Trabalho. Ele transita de uma visão puramente expropriatória e individualista para uma visão sistêmica e coletiva da satisfação do crédito. Ao reconhecer que a empresa é a fonte produtora de riqueza, o direito busca preservá-la não como um favor ao empresário, mas como a única forma racional de garantir que o maior número possível de trabalhadores receba seus direitos.
A ineficiência da execução trabalhista tradicional, com suas altas taxas de congestionamento, exige soluções criativas. A centralização, seja via PEPT, RCE ou analogia à Lei da SAF, apresenta-se como um antídoto viável, desde que gerida com rigor, transparência e boa-fé. Cabe aos operadores do direito dominar essas ferramentas para navegar com competência nesse novo mar de complexidades processuais e econômicas.
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Insights sobre o Assunto
O Regime Centralizado de Execuções (RCE) não é apenas um benefício para empresas, mas uma ferramenta de gestão judiciária para evitar o colapso de execuções simultâneas que resultariam no não pagamento de todos os credores.
A aplicação analógica da Lei da SAF (Lei 14.193/2021) para empresas de outros setores demonstra a tendência do Judiciário Trabalhista em buscar soluções de “microssistema de insolvência” fora da Lei de Falências tradicional.
A figura do Juízo Centralizador ganha superpoderes processuais, concentrando decisões que antes eram dispersas, o que exige do advogado uma mudança de estratégia processual, focando na habilitação correta e fiscalização do plano, em vez da busca individual de bens.
O sucesso do regime depende intrinsecamente da viabilidade econômica da empresa; sem fluxo de caixa real, o RCE torna-se apenas uma medida protelatória que deve ser combatida pelos credores para evitar a erosão patrimonial.
A “fila de credores” no regime centralizado altera a lógica de “quem penhora primeiro recebe”, instituindo uma ordem preferencial que protege créditos de natureza alimentar prioritária, como idosos e doentes, democratizando o acesso aos recursos escassos do devedor.
Perguntas e Respostas
1. O que acontece com as penhoras já realizadas antes da instauração do Regime Centralizado de Execuções?
Geralmente, as penhoras anteriores são suspensas e os valores podem ser remetidos ao Juízo Centralizador para integrar o montante a ser distribuído conforme o plano aprovado, ou, dependendo da decisão judicial e do estágio da expropriação, podem ser mantidas para garantir aquela execução específica, mas a regra é a atração para o coletivo para garantir a paridade entre credores.
2. Qualquer empresa pode solicitar o Regime Centralizado de Execuções na Justiça do Trabalho?
Não automaticamente. Embora a Lei da SAF seja específica para o futebol, outras empresas podem requerer o Plano Especial de Pagamento Trabalhista (PEPT) com base nos provimentos da Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho, desde que preencham requisitos rigorosos de comprovação de crise, risco à continuidade e capacidade de pagamento parcelado.
3. Qual a diferença entre o RCE e a Recuperação Judicial?
A Recuperação Judicial é um processo cível, regido pela Lei 11.101/2005, que abrange dívidas de diversas naturezas (cíveis, bancárias, trabalhistas) e envolve assembleia de credores. O RCE ou PEPT ocorre dentro da Justiça do Trabalho, foca exclusivamente no passivo trabalhista e tem um rito mais simplificado, gerido pelo magistrado trabalhista sem a necessidade de uma assembleia complexa de credores.
4. O credor trabalhista é obrigado a aceitar o deságio ou parcelamento imposto no regime centralizado?
Em regra, uma vez deferido o regime pelo Juízo competente, as execuções individuais são suspensas e o credor deve se submeter à ordem de pagamentos do plano. Contudo, o credor pode impugnar o plano se houver ilegalidades, fraudes ou se os prazos e deságios forem abusivos e não justificados pela capacidade econômica da empresa.
5. O que ocorre se a empresa descumprir o pagamento das parcelas mensais do regime centralizado?
O descumprimento injustificado acarreta a exclusão da empresa do regime. Isso provoca o vencimento antecipado de todas as dívidas e a retomada imediata das execuções individuais, com a possibilidade de penhoras online, bloqueios de bens e até mesmo o pedido de falência da empresa.
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Acesse a lei relacionada em Lei nº 14.193/2021
Este artigo teve a curadoria da equipe da Legale Educacional e foi escrito utilizando inteligência artificial a partir do seu conteúdo original disponível em https://www.conjur.com.br/2026-fev-12/regime-centralizado-como-antidoto-a-ineficiencia-da-execucao-trabalhista/.