O Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) e a Problemática da Confissão dos Inocentes
A reforma do sistema penal brasileiro, especialmente a partir da introdução do Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) pela Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime), trouxe profundas discussões jurídicas sobre sua aplicação e seus impactos na dinâmica processual e nos direitos fundamentais. Entre esses impactos, destaca-se uma controvérsia sensível: o risco de confissão formalizada por pessoas inocentes, pressionadas pelo contexto e pelas consequências do processo penal tradicional.
Este artigo examina em profundidade o ANPP, as exigências legais de confissão e as preocupações concretas relativas à possível confissão de inocentes, oferecendo embasamento teórico e prático para profissionais que atuam no Direito Penal e Processual Penal.
Fundamentos e Previsão Legal do ANPP
O Acordo de Não Persecução Penal está previsto no art. 28-A do Código de Processo Penal, inserido pelo art. 3º-A da Lei 13.964/2019. Trata-se de um mecanismo de justiça negociada pelo qual, preenchidos os requisitos legais, o Ministério Público pode propor ao investigado o acordo para o encerramento do procedimento investigatório, antes do oferecimento da denúncia, mediante o cumprimento de condições pactuadas.
Os requisitos básicos do art. 28-A do CPP são: a inexistência de violência ou grave ameaça no delito apurado; infração penal com pena mínima inferior a quatro anos; confissão formal e circunstanciada da prática do crime; e ausência de homologação prévia de acordo semelhante no prazo de cinco anos. Deve-se observar ainda a ausência de reincidência ou habitualidade delitiva, além de considerar o comportamento posterior do agente.
Natureza Jurídica do ANPP
O ANPP não extingue, propriamente, o delito, mas suspende a persecução penal em troca do adimplemento de certas condições. Uma vez cumpridas, extingue-se a punibilidade, dando solução eficaz e mais célere para delitos de baixa gravidade e promovendo racionalização do sistema penal.
O acordo é submetido à homologação judicial, sendo obrigatória a presença de defensor. A decisão judicial que recusa sua homologação pode ser impugnada por meio de recurso cabível, observando-se a ampla defesa e o contraditório.
O Elemento da Confissão: Exigência e Implicações
O elemento subjetivo crucial exigido pelo art. 28-A do CPP é a confissão formal e circunstanciada da prática do delito. Apenas após a confissão, o investigado pode ser beneficiado pelo acordo. Essa exigência, entretanto, tem gerado debates doutrinários relevantes.
Finalidade da Confissão no ANPP
A confissão tem por escopo servir como elemento de convencimento de que o investigado efetivamente cometeu o crime, evitando acordos injustificados que poderiam advir da mera conveniência administrativa. Visa, também, garantir o interesse público, evitando que infratores de maior periculosidade obtenham benefícios indevidos.
Confissão e Princípios Constitucionais
Embora a confissão seja exigida, é fundamental ressaltar que o acusado tem o direito ao silêncio, nos termos do art. 5º, LXIII, da Constituição Federal, e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. O problema, todavia, emerge quando a estrutura da justiça penal incentiva, de modo indireto, a confissão, mesmo de quem não praticou a infração — especialmente frente ao temor dos rigores do procedimento penal comum.
A Confissão dos Inocentes: Riscos e Desafios Éticos
O fenômeno das chamadas “confissões dos inocentes” ocorre quando indivíduos, mesmo não sendo autores do delito, optam pela confissão para evitar os riscos e custos de um processo criminal (prisão preventiva, exposição midiática, gastos com defesa, duração incerta do processo etc). Essa preocupação é amplamente reconhecida no âmbito internacional, sobretudo nos sistemas adversariais mais acentuados, mas ganhou centralidade também no contexto brasileiro com a difusão do ANPP.
Vulnerabilidades e Pressões no Processo Penal
Diante da assimetria de poder entre acusação e defesa, e das consequências severas de uma ação penal (inclusive as extrapenais), o investigado pode, por medo de condenação ou por cálculo racional, optar pelo acordo, mesmo sendo inocente. Isso apresenta graves distorções para o sistema de justiça, pois, além de não punir efetivamente quem pratica crimes, transfere custos sociais indevidos para o inocente.
Além disso, a confissão admitida nesse contexto pode dificultar pedidos futuros de revisão criminal, perante a existência de uma autodeclaração inequívoca da autoria, tornando ainda mais complexo o exercício pleno do direito de defesa.
Debate Doutrinário Acerca da Confissão do Inocente
Há, na doutrina, quem defenda a admissibilidade do ANPP mesmo sem confissão, especialmente quando o conjunto probatório já aponta para a autoria de modo robusto ou quando se verifica situação de manifesta vulnerabilidade do investigado. Por outro lado, há posições rígidas pela necessidade estrita da confissão, em conformidade com o texto legal.
A hermenêutica que se impõe é a da leitura do instituto à luz dos direitos fundamentais: o advogado deve sempre orientar tecnicamente seu cliente, evitando a confissão injustificada e exigindo do Ministério Público uma sólida base probatória antes da proposta do acordo.
O Papel do Advogado na Implementação do ANPP
Profissionais de Direito Penal e Processual Penal devem atuar com rigor técnico, prevenindo violações de direitos e assegurando a justa aplicação do instituto. O domínio do ANPP exige compreensão das etapas processuais, dos requisitos materiais e das melhores práticas para salvaguarda do investigado.
Em um cenário de crescente protagonismo da justiça consensual, a atuação preventiva e estratégica do advogado é vital para evitar danos irreversíveis à imagem e à liberdade do cliente.
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Reflexos Práticos e Riscos de Aplicação Irrefletida
A banalização do ANPP, sem exame minucioso da concreta situação do investigado, pode fomentar a perpetuação de injustiças. Assim, é imperativo que advogados, membros do Ministério Público e magistrados estejam atentos:
– Ao contexto social e psíquico do investigado;
– À qualidade da defesa técnica prestada;
– À demonstração efetiva da voluntariedade e autenticidade da confissão;
– À existência de provas mínimas de autoria e materialidade.
Também não se pode perder de vista o potencial do ANPP em promover soluções eficazes para infrações de menor potencial ofensivo. O desafio está no equilíbrio entre celeridade processual, redução do encarceramento e salvaguarda dos direitos individuais.
Perspectivas Doutrinárias e Jurisprudenciais
A jurisprudência nacional começa a consolidar entendimentos acerca do ANPP, havendo julgados que reforçam a necessidade do respeito à voluntariedade na confissão e à integridade do processo de homologação. Algumas decisões já delimitam que a confissão, para fins do acordo, não pode ser genérica ou obtida mediante coação, configurando nulidade do pacto se comprovada sua obtenção por meios ilícitos ou pressões indevidas.
A doutrina, por sua vez, tem destacado a importância de protocolos para garantir a autenticidade da confissão e a regularidade da orientação defensiva, ante o risco de confissões artificiais ou induzidas.
Considerações Finais
A justiça penal contemporânea, marcada por institutos de consenso como o ANPP, impõe redobra de cautela e responsabilidade aos profissionais do Direito. O risco da confissão por parte de inocentes revela uma faceta sensível do sistema acusatório, que deve ser mitigada por meio de atuação diligente, ética e informada.
A constante atualização e o aprofundamento do estudo da justiça penal negociada são fundamentais para que advogados estejam à altura desse novo paradigma, defendendo, em primeiro lugar, a dignidade do jurisdicionado.
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Insights Relevantes sobre o Tema
O ANPP evidencia o deslocamento do protagonismo decisório do Judiciário para as partes, tornando imperativa a preparação democrática do processo penal.
A confissão, embora prevista em lei como exigência para o acordo, não pode ser obtida à custa da renúncia ao direito de defesa por vulnerabilidade, ignorância ou medo.
A atuação diligente do advogado é a principal salvaguarda contra injustiças, especialmente para os hipossuficientes e os vulneráveis socialmente.
A negociação penal deve ser instrumento de justiça e não de mera estatística de produtividade.
O estudo aprofundado do ANPP deve contemplar o contexto empírico, os desafios éticos e as tendências jurisprudenciais emergentes no Brasil.
Perguntas e Respostas Frequentes
1. É obrigatório confessar para obter o ANPP?
Sim, o art. 28-A do CPP exige a confissão formal e circunstanciada como condição para a proposta do acordo. No entanto, a confissão deve ser voluntária, livre de coação ou pressão indevida.
2. A confissão feita no ANPP pode ser usada para prejudicar o investigado em outros processos?
Via de regra, a confissão realizada para o ANPP não pode ser utilizada como prova em outros processos, a não ser em caso de descumprimento do acordo, situação em que poderá ser valorada como previsto em lei.
3. O investigado inocente deve aceitar o ANPP?
Não é recomendável que o inocente aceite o acordo apenas para evitar riscos do processo penal, pois estará assumindo a prática de um fato não cometido, com potencial prejuízo futuro.
4. Existe meio de reverter a confissão no ANPP se o investigado for inocente?
A confissão, uma vez formalizada e homologada no ANPP, só pode ser revista em revisional penal, desde que comprovada a inexistência do fato ou vício na obtenção da confissão.
5. Qual o papel do advogado no ANPP?
O advogado deve orientar tecnicamente o investigado, avaliar os riscos e benefícios do acordo, garantir a voluntariedade da confissão e zelar pela integridade do processo de negociação. Ele é fundamental para resguardar direitos e prevenir abusos no sistema.
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Acesse a lei relacionada em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm
Este artigo teve a curadoria da equipe da Legale Educacional e foi escrito utilizando inteligência artificial a partir do seu conteúdo original disponível em https://www.conjur.com.br/2025-set-12/anpp-e-a-confissao-dos-inocentes/.