Inteligência Artificial e Fiscalização de Contratos Administrativos: Convergências entre Tecnologia e Direito
A crescente adoção de tecnologias inovadoras, como a inteligência artificial (IA), tem impactado significativamente a gestão pública, com destaque especial para o campo da fiscalização de contratos administrativos. Este assunto, cada vez mais recorrente no cenário jurídico, exige dos profissionais do Direito uma compreensão profunda não apenas dos conceitos teóricos dos contratos públicos, mas também das novas possibilidades e desafios impostos pela automação e análise de dados em larga escala.
Panorama Jurídico dos Contratos Administrativos
A contratação pública é regida majoritariamente pela Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos), que trouxe avanços consideráveis na busca pela eficiência, transparência e controle dos negócios firmados pela Administração Pública. Os contratos administrativos apresentam características peculiares, como a supremacia do interesse público, cláusulas exorbitantes e prerrogativas para a Administração, sujeitando-se a regime jurídico próprio.
A fiscalização desses contratos é imprescindível e goza de amparo legal expresso. Conforme o artigo 117 da Lei nº 14.133/2021, a Administração deve manter um fiscal ou comissão de fiscalização para acompanhar a execução contratual, zelando pela fiel observância dos termos acordados. Trata-se de determinação que visa resguardar a legalidade e a boa administração do erário.
Dever de Fiscalização e Responsabilidade dos Agentes
O dever de fiscalizar contratos é indelegável e sua omissão pode acarretar responsabilização dos agentes públicos, tanto na esfera administrativa quanto civil e até mesmo penal, a depender das circunstâncias. Aqui reside um nó crítico para a discussão sobre como as inovações tecnológicas podem (ou não) modificar garantias e obrigações tradicionais estabelecidas pelo Direito Administrativo.
Desafios Tradicionais na Fiscalização Contratual
Historicamente, a fiscalização da execução dos contratos públicos enfrenta obstáculos como a limitação de recursos humanos qualificados, a burocracia interna, a dispersão de informações e a dificuldade em detectar, de modo ágil, descumprimentos contratuais, inexecuções parciais, sobrepreço ou outras irregularidades.
Além disso, a subjetividade na interpretação dos dados e documentos, juntamente com a amplitude da atividade administrativa, dificulta a uniformidade e a eficácia da atuação dos fiscais e órgãos de controle.
Fiscalização Preventiva x Reativa
Outro ponto de relevo é a distinção entre fiscalização preventiva, exercida de modo contínuo e diligente durante o curso contratual, e a fiscalização reativa ou corretiva, que ocorre após a constatação de ilícitos. A legislação brasileira busca privilegiar a primeira modalidade, propiciando um ambiente menos propício a fraudes e perdas para o patrimônio público.
Inteligência Artificial Aplicada à Fiscalização de Contratos Públicos
A entrada da inteligência artificial nesse cenário representa uma potencial revolução. A IA é capaz de analisar grandes volumes de dados oriundos de contratos, documentos, medições, notas fiscais, registros de fiscalização, bases externas (como TCU e portais da transparência), examinando padrões complexos e emitindo alertas sobre desvios de conduta, riscos operacionais ou indícios de corrupção.
Este uso da IA pode melhorar consideravelmente a eficiência e a acurácia do acompanhamento contratual, reduzindo o erro humano, acelerando auditorias e fortalecendo os mecanismos de controle. No entanto, sua adoção demanda cautela diante de preceitos jurídicos fundamentais.
Automação Decisória e Limites Legais
A automatização de etapas do processo de fiscalização, mediante softwares de IA, não exime a presença humana e a responsabilidade dos agentes públicos. O art. 20, §1º, da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Lei 13.709/2018), por exemplo, impõe limites ao uso exclusivo de decisões automatizadas quando envolvem direitos e interesses de pessoas naturais.
Além disso, é vital garantir que decisões ou recomendações geradas pelo algoritmo sejam auditáveis, observando princípios como a motivação dos atos (art. 50 da Lei 9.784/1999) e a ampla defesa, tanto para particulares contratados quanto para servidores eventualmente responsabilizados.
Benefícios e Limitações do Uso de IA na Fiscalização
Entre os benefícios, destacam-se a capacidade de identificar rapidamente inconformidades, cruzar dados de múltiplas fontes, propor rankings de riscos e propor planos de ação adaptados ao contexto do contrato. Isso permite que o fiscal ou a comissão foque sua atuação em pontos críticos, agregando maior valor estratégico à sua função.
Contudo, a IA enfrenta limitações importantes: não pode substituir o discernimento jurídico e o exame qualitativo de aspectos subjetivos da execução contratual, como eficiência, razoabilidade de determinadas demandas, circunstâncias locais e entendimento evolutivo da jurisprudência. Por isso, a especialização contínua do operador jurídico permanece insubstituível.
Para atuar nesse segmento, é fundamental dominar tanto a estrutura legal e principiológica dos contratos administrativos quanto os aspectos práticos de sua regulação – temas aprofundados em cursos como a Pós-Graduação em Licitações e Contratos Administrativos.
Questões de Transparência, Riscos e Compliance
O emprego das ferramentas de IA também demanda rigor em termos de compliance digital e transparência. A Administração Pública precisa garantir aos interessados o direito de acesso às informações e bases de dados utilizadas (princípio da publicidade e da transparência), bem como a segurança dos dados processados, sob pena de violação à LGPD.
Outro aspecto crucial é a possibilidade de ocorrerem vieses nos algoritmos, que podem perpetuar práticas discriminatórias ou imprecisas se seus dados de treinamento forem inadequados. O controle social, por meio dos órgãos de fiscalização e tribunais de contas, deve ser aprimorado para acompanhar essa nova realidade.
O Papel do Jurídico e do Advogado na Era da Fiscalização Automatizada
A transição para um ambiente de fiscalização automatizada modifica o perfil do advogado atuante em Direito Administrativo. Agora, além do domínio das normas, é essencial compreender fluxos de dados, arquitetura de sistemas, governança de inteligência artificial, direitos dos titulares de dados e limites à automação.
A conjugação dessas competências leva ao surgimento de um novo tipo de consultoria estratégica, capaz de assessorar tanto entes públicos quanto fornecedores privados nas etapas de contratação, execução e eventual defesa em processos administrativos sancionadores.
O conhecimento jurídico ampliado também se faz necessário para orientar a correta elaboração dos editais e contratos, prevendo cláusulas sobre o uso de IA, auditorias, responsabilidade civil objetiva/subjetiva e garantias dos direitos fundamentais.
Aprofundamento Jurídico e Multidisciplinaridade
O aprofundamento no estudo da regulação dos contratos administrativos e do impacto da tecnologia, sobretudo em programas de formação avançada, torna-se um verdadeiro diferencial para o profissional que deseja atuar nessa fronteira do Direito. Conhecer os aspectos jurídicos, técnicos e éticos da fiscalização automatizada é vital para promover uma atuação segura, inovadora e alinhada ao interesse público.
Para se atualizar de forma completa sobre todas as nuances da inovação nos contratos públicos, recomenda-se um percurso estruturado de estudo, como o proporcionado pela Pós-Graduação em Licitações e Contratos Administrativos.
Considerações Finais
A integração da inteligência artificial à fiscalização de contratos públicos é uma realidade em rápida expansão, trazendo benefícios substanciais e novos desafios para a atuação jurídica. A modernização dos processos, se bem conduzida, contribui para maior transparência, eficiência e probidade na Administração Pública.
No entanto, a tecnologia constitui sempre um meio, e não um fim, estando submetida ao controle e à responsabilidade dos profissionais do Direito. O futuro da advocacia nessa área exige adaptação contínua, estudo dedicado e compromisso com a ética e a legalidade.
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Insights para Profissionais do Direito
O uso de IA na fiscalização de contratos públicos não elimina competências humanas, mas as potencializa.
A atualização legislativa, principalmente a Nova Lei de Licitações, impõe novos deveres e oportunidades para o advogado.
O domínio das normas técnicas e princípios digitais torna-se elemento central para consultorias e contencioso preventivo.
O advogado atuante deve desenvolver habilidades múltiplas, combinando expertise jurídica com entendimento das ferramentas tecnológicas.
Processos de fiscalização automatizada exigem constante revisão de controles internos e compliance no setor público.
Perguntas e Respostas Frequentes
1. A inteligência artificial pode substituir por completo o fiscal de contrato?
Não. Apesar de potencializar o trabalho de fiscalização, a IA não substitui a necessidade de atuação humana, sobretudo na tomada de decisões técnicas e jurídicas e no atendimento a princípios legais.
2. O uso de IA na fiscalização pode violar direitos dos contratados?
Pode, caso não sejam observados critérios de transparência, motivação das decisões e garantia do contraditório e da ampla defesa, bem como a proteção de dados sensíveis segundo a LGPD.
3. Existem limites normativos para o uso de IA pela Administração Pública?
Sim. A aplicação da IA na fiscalização deve respeitar limites impostos pela legislação, como a LGPD, a Lei 14.133/2021 e princípios constitucionais, assegurando o controle e a auditabilidade dos processos automatizados.
4. Que novas competências são exigidas do advogado atuante em contratos públicos diante da automatização?
Além do domínio jurídico, é necessário compreender fluxos de dados, arquitetura de sistemas e questões éticas relacionadas à automação e proteção de dados, atuando de forma multidisciplinar.
5. Como a especialização pode contribuir para a atuação avançada nesse cenário?
A especialização proporciona visão estratégica, atualização normativa e conhecimentos práticos indispensáveis para atuar em casos de alta complexidade, como os relacionados à fiscalização automatizada de contratos públicos.
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Acesse a lei relacionada em Lei nº 14.133/2021 – Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos
Este artigo teve a curadoria da equipe da Legale Educacional e foi escrito utilizando inteligência artificial a partir do seu conteúdo original disponível em https://www.conjur.com.br/2025-set-18/inteligencia-artificial-na-fiscalizacao-de-contratos-publicos-mito-ou-realidade/.